15/10/2022
O sorriso
A Rita tem uma coisa que contagia, o seu sorriso. Para vocês que não estão todos os dias com ela, pode parecer sorriso de foto, instantâneo de um clique, mas não, afianço-vos que raramente é de pose.
Talvez faça a sua pose, nas selfies para mostrar o seu cabelo avermelhado a condizer com o tom da sua Flapy.
Também chora, por vezes de dor e agustia, chora com vontade e direito próprio – fossemos nós a aguentar o que esta miúda tem aguentado. Mas ela quando chora de vontade, tem sempre o cuidado de justificar a lágrima para logo a seguir pedir desculpa, como se chorar com vontade e motivos óbvios merecesse um pedido de desculpas a alguém, é um direito que lava a alma.
Quando hoje lhe tirei esta foto olhei para este sorriso e lembrei-me das lágrimas que deita fora por não poder mais.
Há cinco meses que andamos num roda-viva, faz agora esse tempo contado no próximo sábado, desde que fomos a correr para o Hospital tirar os ferros e 25 parafusos. Andamos agora a remediar os estragos. O sorriso da Rita é neste caso como o mercurocromo que as nossas mães espalhavam numa ferida a sangrar, pelos trambolhões da nossa meninice.
Contamos os dias, são quase 150 e ainda andamos a afinar tudo, aliás andamos a afinar sempre como os pilotos de te**es, afinámos as nossas vidas familiares inclusive, vai para 23 anos...É o tempo em que andamos a colecionar sorrisos da Rita como quem caça borboletas...somos como os lepidopterologistas com a rede, sempre a correr atrás do bater de asas sincopadas e coloridas. São assim os sorrisos da Rita, voam. Na verdade, só lhe queremos dar asas, deixá-la chorar também, mas sabendo que o faz em último recurso, quando não pode mais e tem uma razão ou vontade simples. Só nos custa mesmo - já impotentes - quando é por dor aguda, fria e fininha, mas mesmo nessas alturas ela remata com aquela expressão: - “Doí-me tanto que não sei se chore ou ria...”
A Rita já aprendeu que é sempre melhor rir, pelo menos sorrir.
Para que ela saiba que mesmo sorrir não é fácil e há muitas formas de o fazer, eu fui à procura de um catálogo de sorrisos, percebi que há pelo menos dez identificados. Podemos ter um sorriso espontaneamente feliz, um sorriso triste, um sorriso relutante, um sorriso de pensamento, o sorriso que vem com o riso, um sorriso desagradável, um sorriso malicioso, um sorriso falso, um sorriso reprimido.
Há depois o sorriso da Rita. É claro que a partir da experiência e situações de cada um, até nas relações de amigos, familiares e colegas, podem levar com vontade ao adicionar de mais categorias de sorrisos a esta lista.
Sorrir, é na verdade uma forma extremamente complexa de expressão emocional por isso é importante perceber que o propósito e efeito de cada sorriso é profundamente influenciado pela vida que cada um vive e pelas marcas e experiências já vividas. Nesse aspeto a Rita sorri com um sorriso espontaneamente feliz. Só quem passa pelas coisas, nem queiram saber a trabalheira que dá chegar a este estado de lapidação de um sorriso...é o que nos vale quando temos que lidar com a insensibilidade, as injustiças do sistema, os incompetentes dos organismos A propósito!...da cadeira ainda nada! no mínimo depois do sururu, esperava receber uma carta registada do diretor da segurança social de Aveiro a dizer que se tinha ofendido com o recado que mandei...mas enfim nem isso , talvez seja como as avestruzes com areia até às orelhas quase a fazer o pino. É o sistema.
O melhor é mesmo aprender a sorrir com sentido, para não deixar que as lágrimas da revolta possam inundar a razão de ser. Aí a Rita já sorri por tudo o que tem passado, sorri por ela e pelos que não param de chorar por ninguém lhes ouvir a dor.
Mário Augusto