03/05/2026
Até há bem pouco tempo invejava os chefs que têm as receitas da mãe e da avó para colocar no prato, que herdam segredos e mezinhas. A infância a temperar-lhes a inspiração. A terra da família.
Eu, nascido e criado pelo Chiado, achava que não me estava reservada essa sorte da ordem natural das emoções. Do amor, do afeto, da proteção. Mas descobri, querendo ou não, que algo me estava reservado, nem que fosse a antítese de tudo isso. E que isso também era emoção.
Postas as coisas em pratos limpos, na vida também há dor e na dor também reside o amor. E não só o que senti, como a descoberta consciente deste processo emocional de aceitação da minha história, emocionou-me. E depois, entusiasmou-me.
A primeira pedra que assentei nesta minha construção da Técnica da Emoção foi abraçar a perda. Processá-la. E depois, com cuidado, experimentei manipulá-la. Comecei a querer (re)criar emoções. Servi-me da comida para não perder o amor, para me alimentar de afeto, para me proteger a memória. Trabalhava em bares e ainda não era cozinheiro, mas já usava nos meus pequenos almoços aromas que me lembravam dos cheiros de uma casa que um dia me foi familiar. Ainda descasco a fruta como a minha mãe. Nas minhas mãos com laranjas que “o senhor trazia do Algarve” como ela me dizia, cheirava as mãos dela. Muitas memórias sensoriais concretizaram-se em pratos que não foram fruto do concreto, mas sim da minha imaginação. Eram os ingredientes que tinha. E nessas frigideiras e panelas ora lembradas ora inventadas, fui fazendo as pazes com a minha mãe.
[ chef Rui Rebelo no artigo ‘A Técnica da Emoção’ ]