03/07/2024
“O “Admirável Mundo Novo”, não o do Huxley, mas o nosso, de cada vez que o sofisticado nos irrompe pela porta.
O que nos muda para sempre.
Será que acontece todos os dias? Eu creio que sim, se estivermos atentos, caso contrário, o lugar é sempre o mesmo…quando há lugar.
Estou a tentar escrever a introdução para o episódio de hoje e as palavras escasseiam. É-me raro, mas às vezes acontece. Acontece, por exemplo, quando fico arrebatada. Não consigo olhar para o maior amor de todos sem ficar espantada e sem palavras. Creio que é o que acontece quando as coisas nos tocam em lugares aquém da linguagem. Foi assim que passei a gostar de poesia, quando percebi a complexidade de colocar na palavra o que pode estar aquém da linguagem.
Aconteceu no dia em que a minha mãe usava uma saia de fazenda, com padrão axadrezado, com o corte do kilt, um pouco mais comprida, em tons de verde. Usava-a com umas botas castanhas de cano alto. A saia cobria um pouco das botas. Estávamos junto da sapateira lá de casa, eles tocavam na rádio e a minha mãe começou a bater o pé e a cantarolar. Logo de seguida ensinou-me a dançar o twist. Eu devia ser muito pequenina porque, é esta a memória, de umas botas e de uma saia rodada, que tenho do momento em que ouvi pela primeira vez os Beatles. (…)
(…) O convidado de hoje de Três Divãs, podia ter-se dedicado à indústria de construção de coberturas, mas não, não foi isso que fez, resolveu ler muito, escrever muito e ouvir muita música e escolheu trazer-nos um tiro do qual o mundo, ainda hoje, recolhe os estilhaços.
O disco de hoje tem tudo lá dentro. Tudo. Tem a castração e a liberdade. É tão grande, mas tão grande, que não cabe dentro do coração. Não cabe dentro de nós. E só damos conta dele porque entramos em osmose de cada vez que toca.
Há um lugar onde o conseguimos colocar todo, a memória. O que é uma chatice para aqueles que a têm curta, pois nunca saberão o que isto é.
Nada mais foi igual desde o Revolver, o sétimo disco dos Beatles, escolhido pelo Nuno Migue Guedes com quem vamos ter o prazer de conversar, eu e a Patrícia Câmara, hoje na Livraria do Bernardo Trindade.”
Já disponível em Spotify 🎙️▶️