19/09/2017
Sobre o ocorrido no Rock in Rio com a querida Roberta Sudbrack (caso ainda não saiba, leia em ou nos principais portais de notícias), A Queijaria tem a obrigação de comentar:
1) A Vigilância Sanitária de São Paulo faz um belo trabalho, nos fiscaliza com educação, respeito e muito diálogo. Aprendemos demais nesses anos e construímos uma relação com foco no alimento com total sanidade e rastreabilidade. Essa é a palavra chave que aprendemos e que muda tudo nessa questão: rastreabilidade. Por isso em nosso projeto, conhecemos cada produtor pessoalmente e acompanhamos todos os processos.
2) Veja nos perfis das redes sociais de produtores e de quem trabalha diretamente com queijo para ver quantos estão se manifestando. Quase ninguém, e somos muitos. É normal esse medo? Não é fácil para cada um de nós. Vivemos em constante tensão, mas sabemos como nosso trabalho é fundamental para o país. Não são só negócios.
3) Roberta sempre apoiou nosso projeto, assim como tantos outros que procuram valorizar os verdadeiros produtores de alimentos sagrados, limpos, bons e justos. Conhecemos muito a produtora dos queijos que foram jogados no lixo, assim como ela, e pessoalmente, assim como todos que um dia fomentamos. A produtora desse queijo é muito responsável, com formação técnica. Sua produção é um primor e com muitos anos de estrada. Tem o selo estadual, portanto tem inspeção regular. Não está no RJ, mas mesmo assim f**a difícil de entender a lógica de podermos comer o seu queijo num estado brasileiro e não podermos comer em outro. Somos seres de espécies diferentes? Para mudar uma lei, que é arcaica e não faz sentido algum, só com esses tristes acontecimentos. Lamentamos muito, Roberta. Estamos juntos e vamos mudar esses absurdos, aliás já estamos mudando. Vejam só o tamanho e importância desse debate. Acreditamos no Brasil! Sofremos demais com denúncias aqui também e seguimos firmes. Essa é a história de muitos.
4) Há notícia de algum surto público por consumo de queijos artesanais? Não. A razão é simples: faz parte dos projetos de famílias responsáveis o controle sanitário, de zoonoses, respeito aos animais, boas práticas e higiene na ordenha, produção, maturação e transporte. Esqueça a imagem do produtor sujo, do leite contaminado, do queijo produzido de qualquer jeito, sem esmero, que não se preocupa com doenças como tuberculose e brucelose. Assim como os chefes estudam para fazer os melhores pratos, os pequenos produtores de queijo artesanal vivem se atualizando, buscando melhorias, aperfeiçoando técnicas e controles. Essas são as famílias que merecem nosso respeito e portanto acham espaço na A Queijaria, com a Roberta e em todos os outros projetos sérios que valorizam o queijo artesanal com qualidade e dignidade.
5) Os queijos deveriam ter SIF ou SISBI, selos federais, mas infelizmente o sistema não funciona, não se adequa ao pequeno produtor, não há como se comparar uma planta de produção artesanal com uma industrial. Investimento absurdo, tempo burocrático incabível, papeis que tiram a família do foco, que é a produção de um queijo de qualidade. É imperativo uma legislação específ**a para o artesanal, com uma matriz nova que não seja a industrial. Muito já se andou nesse sentido, mas a equação ainda não está fechada. São vários interesses em jogo, infelizmente. Todo mundo quer trabalhar direito, mas só alguns conseguem. É só pesquisar quantos selos do SISBI para produção de queijo existem para entender como tem algo bem errado nessa lógica atual - será que temos meia dúzia de "limpos" e milhões de produtores sem higiene? Todos que têm selo municipal e estadual possuem análise que comprovam a saúde alimentar dos seus queijos, mas o que fazer se não conseguem o selo federal? Precisam do mercado além de suas fronteiras para sustentar suas famílias, defender suas tradições. Nós poderíamos comercializar muitos mais queijos do que efetivamente fazemos. São milhões de pessoas que dependem disso. É isso que Roberta defende. E nós. E um exército de pessoas também.
6) Entendemos que a maioria dos órgãos públicos fiscalizadores estão aos poucos se adaptando a essas novas demandas. São muitas pessoas de bem que entendem que a lei é antiquada e discriminatória, e portanto tem atuado com razoabilidade nos necessários controles sanitários. Não parece ser o que aconteceu no episódio do Rio de Janeiro.
7) Precisamos de cada vez mais apoio da mídia, chefes, fiscais, técnicos, políticos, acadêmicos, consumidores. Todos aqueles que acreditam que o ato político diário de escolher o que se come é fundamental, desalienante e passa por valorizar e priorizar a agricultura familiar, e no caso específico liberar oficialmente a comercialização de queijos de leite cru que respeitem as normas de higiene compatíveis com as pequenas unidades produtoras.
8) Temos chance única de nos tornarmos referência mundial em queijos (mercado crescente e com muito espaço ainda, inventividade assustadora, avanços em tecnologia social e de produção sem precedentes, além do mais importante, a biodiversidade de nosso país, que garante variedade de sabores, aromas, texturas e cores). Não podemos fazer o que todos os outros países do mundo fizeram, com tantas concessões em suas legislações, que acabaram por desviar o fim principal de séculos de história e tradições queijeiras. Hoje temos no mundo, infelizmente, muito mais queijos saborizados, cheios de conservantes e com fórmulas matemáticas tristes, do que queijos vivos, que carregam em si mobilidade social e a dignidade identitária de povos. O que é defeito na indústria é dádiva no artesanal. É outra lógica!
9) Existe muito espaço no mercado brasileiro para queijos saudáveis, com qualidade e sabor, sejam industrializados ou artesanais, de leite cru ou pasteurizado, mas não dá mais para aceitarmos tanto desrespeito no campo, tanta exploração do pequeno, ações fiscalizadoras truculentas e irracionais, tanta falta de vontade política para dar paz a quem realmente coloca comida na mesa. Para você que é queijeiro como eu, que faz parte dessa nova cadeia: chega de egos exacerbados, de competição desnecessária, de objetivos tão mesquinhos e protecionistas. Cadê a união que nós todos tanto pregamos? Mãos à obra! Vamos com a Roberta!