10/08/2026
Quando meu pai for embora…
Mais um Dia dos Pais em que eu me pergunto: Será esse o último?
Há 12 anos, recebemos o diagnóstico: Demência Frontotemporal.
Foi uma facada no coração (facada que nunca saiu de lá. De vez em quando, ela dá uma voltinha. E dói de novo.).
Desde então, fomos nos reinventando. Aprendendo a conviver com o “novo” Marcellão.
Mais calado.
Mais repetitivo.
Mais distante.
Durante muito tempo, eu olhava para ele sentado em sua poltrona, com aquela cara boa de sempre, e pensava:
“Mentira que vc tá doente.”
Mas o tempo passou. E, há cerca de 3 anos, o corpo começou a sucumbir.
Hoje, meu pai depende de alguém para tudo. Comer. Tomar banho. Se vestir. Deitar. Levantar.
Não comunica mais.
Não reconhece mais ninguém.
E foi aí que eu comecei a “sofrer”.
Não pela morte. Mas pela despedida que acontece devagar.
Homeopaticamente.
Talvez, desde então, eu esteja tentando me preparar para quando meu pai for embora.
“Marcela, que coisa mórbida!”
Então eu te convido a viver, por pelo menos 24 horas, as últimas 105.120 horas que vivemos.
E depois me diga se é possível não pensar no dia em que ele vai embora.
Por aqui não falta amor.
Não falta cuidado.
Não falta zelo.
E, principalmente, não falta fé em Deus e em Seus propósitos.
Quando ele foi diagnosticado, eu sofria imaginando o dia em que ele me esqueceria.
Mas Deus, na Sua infinita sabedoria, fez desse dia apenas mais uma pequena parte de tudo que viria.
Quando percebi, já tinha acontecido.
Hoje, eu acordo quase todos os dias pensando:
E se for hoje?
Por isso, penso no depois.
Quando meu pai for embora, como serão os Dias dos Pais sem o pudim, sua sobremesa preferida?
E os 22 de outubro? Também tem pudim. Obrigatoriamente. 😂
Como meu filho vai reagir? Ele cresceu ao lado do avô e hoje ajuda a cuidar dele.
Como será aquela casa sem a movimentação de hoje?
E a Maria? Afinal são 54 anos juntos….
Eu não tenho essas respostas. E sei que só terei depois que meu pai for embora.
Talvez pensar nelas seja a minha maneira de tentar me preparar. Não para esquece-lo. Mas para, quando chegar a hora, conseguir deixá-lo ir.
Porque amar também é isso: deixar ir para que não sofra mais.