01/03/2025
RETOMADA
Não sei quantas vezes e de quantas maneiras tentei iniciar este texto. Em grande parte delas, a ferida ainda aberta de tudo o que aconteceu vinha à tona trazendo dor e angústia. Estes sentimentos, porém, não são o propósito do dia de hoje, assim como me entregar a eles não era o propósito nas ocasiões que voltei a Arroio do Meio para encarar a realidade da destruição do que eu, minha família e tantos outros amigos tínhamos por vida e raiz. Diante do inacreditável, os versos de Luiz Menezes, um grande poeta gaúcho, rondavam meus pensamentos:
“Chorar é pra quem tem tempo
e o tempo pra o pobre é escasso
pra se lastimar atoa,
quando já não se tem remédio
nem a esperança num cobre”.
Nada aplaca a dor; o riso não traz felicidade ao que aconteceu, mas tampouco o choro ajuda a seguir em frente. Pisei novamente nesse lodo sabendo que, rindo ou chorando, o desafio que teria pela frente seria o mesmo. Achei mais saudável a primeira opção e guardei meu luto pra mim mesmo, sabendo muito bem por onde começar e partindo para o trabalho.
Defini a chegada como o marco zero; se não o, com certeza um dos piores dias da minha vida. Num primeiro momento parece algo horrível, mas, por outro lado, nos dá certo conforto de tratar tudo o que se segue como algo positivo. Cada pá de lodo era uma vitória, a expulsão de algo que não pertencia àquele lugar; o cansaço físico dava lugar à gana de lutar pela nossa casa, nossa família, nossa fortaleza!
A dinâmica da vida é engraçada e paradoxal: nas pequenas vitórias residia a felicidade. Em tempos de busca constante por uma vida ideal, seguindo de plano em plano, projeto em projeto, sempre com a cabeça no futuro e geralmente de maneira intangível, fomos puxados bruscamente para o presente. O passado ficou na memória e o futuro é incerto. Temos o agora que, mesmo permeado pelo caos, trouxe coisas boas para nos mostrar que todo dia é dia de viver. Devemos agradecer, mesmo que, diante da nossa própria dor e da dor alheia, não nos sintamos no direito de receber e comemorar as bênçãos recebidas.
A foto que escolhi para esta postagem traduz muito disso: a poesia, a resistência, o renascimento.
Dos momentos felizes a seu modo….
Mesmo destruída, nossa casa nunca perdeu sua alma acolhedora; mesmo após restar só a casca, foi lar e abrigo a todos que ali adentraram. Assim que o segundo andar foi limpo, mudei pra lá, do jeito que deu, sem água, sem algumas paredes, uma tomada apenas, mas em casa. Nesse período, surgiu, junto com bons amigos, a Milonga na Casa do Peixe. Se tornaram hábito os jantares na velha casa, que, em meio ao breu do bairro posto a baixo, irradiava luz e quebrava o silêncio da noite com boa música. Talvez sejam das milongas alguns dos céus mais lindos que já vi em nossa terra. Esta foto foi um dos primeiros registros da casa totalmente iluminada, cheia de vida, mesmo que vazia. Poderia ter dormido no meio do nada, olhando pra ela.
Hoje, 142 dias depois de fechar suas portas, o Casarão que se tornou símbolo de reconstrução, volta às atividades de braços abertos e com uma dívida de gratidão impagável a tantas pessoas que deixaram seus lares e vieram de outras cidades e mesmo de outros estados para trabalhar voluntariamente pelo próximo:
pessoas que dentro de suas condições e possibilidades, não mediram esforços para amenizar o sofrimento alheio;
pessoas que mobilizaram recursos e doações para as regiões atingidas;
pessoas que divulgaram incansavelmente a realidade do nosso Rio Grande, para que não caísse no esquecimento ao resto do país;
pessoas que por meio da arte captaram com sensibilidade o sentimento da nossa gente;
pessoas solidárias que mesmo em orações ou pequenos gestos, tentaram ao seu modo ajudar;
pessoas que se tornaram parte da casa, da família e agora também são parte dessa história;
pessoas sem as quais não teríamos condições de retomar.
Talvez seja este o propósito maior disso tudo: renovar a fé na humanidade e ver que a bondade sempre prevalece.
MUITO OBRIGADO!
E comemoremos, pois de onde eu venho, dia 20 é dia de Festa!
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